Adoecimento, Sofrimento e o morrer no hospital
os limites da curaPor séculos a morte foi parte natural da vida, cercada de rituais e sentido. Hoje, dentro do hospital, ela costuma ser vista como um fracasso da medicina, algo a evitar a qualquer custo. Este texto percorre essa mudança histórica e mostra onde entra o psicólogo hospitalar quando a cura já não é mais possível, no trabalho dos Cuidados Paliativos.
A saúde esteve, por muito tempo, ligada a crenças espirituais: a doença era vista como um desequilíbrio cósmico ou um castigo divino. Curandeiros, rezadeiras, benzedeiras e parteiras reuniam saberes orais, observação e conhecimento de ervas e rituais locais numa prática voltada para cada pessoa e sua comunidade, não para a enfermidade isolada.
Com a expansão do cristianismo, a Igreja Católica assumiu aos poucos o controle da assistência nos mosteiros, ligando a medicina à teologia. Nesse período, o hospital funcionava como um espaço de hospitium (palavra latina de hospedagem, origem do próprio nome "hospital"), um refúgio para pobres, peregrinos e desamparados, onde a doença era entendida como penitência e a cura um ato de caridade para a salvação da alma.
A partir do Renascimento, e com mais força no século XIX, o conhecimento médico se reorganizou em torno do estudo do funcionamento do corpo e da microbiologia. O hospital deixou de ser refúgio para virar espaço de confinamento e controle social, e depois o centro técnico da prática médica, voltado ao diagnóstico e à investigação clínica, em busca da cura científica. Essa mudança criou uma divisão desigual: as elites tinham acesso à medicina científica, universitária e mais eficaz, enquanto as classes baixas continuavam restritas a cuidados empíricos e místicos.
A medicalização, que ganhou força na segunda metade do século XX, é a expansão da lógica médica sobre partes cada vez maiores da vida cotidiana. Experiências pessoais viraram alvo permanente de classificação e intervenção: a pessoa concreta, com sua história única, passou a ser reduzida a protocolos e categorias estatísticas gerais. O ensino médico passou a tratar a morte como um fracasso profissional, priorizando manter a vida a qualquer custo, inclusive prolongando artificialmente o morrer por meio de máquinas, mesmo que às custas do bem-estar do paciente.
A Tanatologia estuda a morte, as perdas, o morrer e o luto, buscando aliviar o sofrimento psíquico de quem vive ou trabalha com esses momentos. O cuidado hospitalar chega, no fim, ao limite mais difícil da prática clínica: A MORTE.
Antigamente, o morrer era encarado com mais naturalidade. A falta de recursos tecnológicos e as grandes epidemias tornavam a morte mais comum, e quando ela chegava, vinha cercada de significados construídos ao longo de gerações. As pessoas costumavam morrer em casa, onde rituais de despedida reuniam a família e toda a comunidade. Quem estava morrendo tinha a chance de reorganizar os laços familiares, com seus últimos desejos ouvidos e sua autonomia respeitada até o fim.
Hoje a morte costuma ser vista com preconceito, e muita gente tem dificuldade de falar sobre o assunto, ela virou tabu na cultura contemporânea, onde antes era o sexo. Diante da morte de alguém que agoniza no leito, o médico e os outros profissionais de saúde esbarram no limite do que sabem e do que podem fazer: os avanços tecnológicos que aumentaram a longevidade nem sempre bastam diante da pretensão de dominar o fim da vida. Mesmo lidando todos os dias com essa possibilidade, a encaram como um resultado indesejado, contrário ao propósito da própria profissão. Sentem-se responsáveis por manter a vida de seus pacientes, o que gera sofrimento, impotência e culpa diante da perda.
Em resposta a esse excesso de tratamento, conhecido como obstinação terapêutica, os Cuidados Paliativos surgem como uma abordagem humanizada para pessoas com doenças graves, crônicas ou que ameaçam a continuidade da vida. O objetivo não é curar, mas cuidar da qualidade de vida do paciente e da família, aliviando o sofrimento físico, emocional, social, espiritual e existencial. Essa prática entende a morte como parte natural da vida, sem buscar antecipá-la ou adiá-la artificialmente.
O psicólogo hospitalar tem papel importante no suporte ao paciente, à família e à equipe nos Cuidados Paliativos. O modelo é centrado na pessoa, defendendo que o cuidado comece cedo, junto com o tratamento da doença, e que as Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV) do paciente sejam respeitadas, com seus valores, crenças, cultura e autonomia como princípio central. Todo cuidado é necessário, contudo, para não reduzir o papel desse psicólogo a um mero intermediário que tenta convencer uma das partes a mudar de ideia, sem tirar dos outros profissionais a responsabilidade de oferecer um cuidado igualmente humano. Sua presença é estratégica, com participação obrigatória nas equipes previstas pela Política Nacional de Cuidados Paliativos.
Dentro da equipe multiprofissional, o psicólogo hospitalar pode atuar na mediação e na comunicação de notícias difíceis, participar de decisões clínicas complexas e até acionar o Comitê de Bioética quando necessário. No plano institucional, colabora na capacitação de outros profissionais, no desenvolvimento de protocolos e no incentivo à pesquisa científica.
Entre o hospital que cura e o hospital que acompanha até o fim, há um espaço que a medicina sozinha não alcança. O psicólogo, junto ao paciente e à sua rede familiar e social, ajuda a entender o diagnóstico e o prognóstico, apoia o enfrentamento das perdas que o adoecimento traz aos poucos, e auxilia na construção de sentido diante da finitude. Também oferece suporte especializado ao luto, desde antes da morte até depois dela, atento aos sinais de risco para um luto mais difícil. Os limites do saber técnico diante da morte marcam onde começa outro tipo de cuidado: um que escuta a pessoa antes de tratar a doença, e que a acompanha, com toda a equipe ao redor, até onde a vida ainda pode ser vivida com sentido e bem-estar.
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