Cuidados Paliativos Psicologia Afirmativa Compulsões PcD, TDAH e Bariátrica Depressão e Ansiedade Textos Perguntas
💬

Perguntas

Perguntas reais, tiradas dos meus próprios textos, respondidas em linguagem direta. Se a sua dúvida não estiver aqui, pode mandar a sua no formulário no fim da página, sem se identificar. E ela não precisa ter nada a ver com estes textos: pode ser sobre qualquer assunto da psicologia, ou sobre o que você estiver vivendo.

Clínica Hospitalar: Itinerário Terapêutico

Ler o texto completo →
O senso comum costuma reduzir o papel do psicólogo hospitalar a acalmar o paciente ou suavizar a relação dele com o médico e a equipe de saúde. O trabalho começa antes disso: escutar a diferença entre a queixa que a pessoa formula, o desconforto emocional que ela sente e o valor que a orienta por trás dos dois. Também entram aí as avaliações, as devolutivas, os registros em prontuário e a mediação entre o paciente e os profissionais responsáveis pelos procedimentos técnicos.
É o caminho que uma pessoa percorre para lidar com uma doença ou um sofrimento. Um trajeto que raramente tem um plano definido desde o começo: vai se formando aos poucos, misturando soluções diferentes. Esse itinerário também envolve crenças, valores e costumes que orientam as decisões sobre tratamento e cuidado: um conjunto de escolhas e caminhos que as pessoas constroem para lidar com a aflição. Essas escolhas não são só técnicas: elas carregam experiências, vínculos e formas próprias de cada um dar sentido ao adoecer.
Costumam ser três: o cuidado informal, com automedicação e conselho de família, amigos, benzedeiras ou práticas religiosas; o popular, com terapias alternativas, chás, remédios naturais, medicinas tradicionais e rezas; e o formal, quando a pessoa chega ao sistema oficial de saúde: posto de saúde, UPA, pronto-socorro, CAPS, hospital, médico especialista.
Porque mostra os obstáculos reais que ele enfrentou até ali, como falta de informação ou tempo de espera. Também mostra por que a cultura e o meio social de cada um influenciam tanto a decisão de continuar ou largar um tratamento.
A multiprofissional junta as disciplinas lado a lado, com risco de o cuidado ficar fragmentado. A interdisciplinar exige troca real entre os profissionais.
Quando o nome da doença passa a definir quem a pessoa é, o olhar clínico empobrece e a sensação de perda de identidade aumenta. Guiar-se apenas pelo diagnóstico limita o cuidado que se dirige a uma pessoa atingida pelo adoecimento e não a uma doença solta. Doença nenhuma existe separada do corpo, da história e da vivência de quem a carrega. Manter a diferença entre a doença e quem sofre com ela favorece mais autonomia psíquica e ajuda o paciente a perceber que o sofrimento não resume tudo o que ele é.
Devolver à pessoa aquilo que o processo de coisificação tirou dela, sem negar o mal-estar de existir. No hospital ela enfrenta os sintomas do próprio adoecimento e a incerteza sobre o tratamento, possíveis sequelas, efeitos de medicamento, dor de procedimento, e às vezes o descaso de ser chamada pelo nome da doença.
Para avaliar como o paciente entende as decisões de grande peso e efeito irreversível. O instrumento precisa ser um auxílio de verdade, sem virar dispositivo que exclui nem procedimento apenas burocrático, e sem ceder a pressão institucional ou de mercado.
As questões subjetivas do adoecer voltam de outra forma: impasses, recusas, angústia, dificuldade de seguir o tratamento, às vezes sintomas.
O médico se apoia na promessa de cura e no domínio técnico. O psicólogo parte da abertura ao psicológico, e a palavra é a ferramenta principal. Mesmo sem tempo para uma escuta longa, numa urgência podem surgir insights pontuais e mais flexibilidade psicológica, decisivos para o enfrentamento do tratamento ou para a posição da família diante da crise.

Adoecimento, Sofrimento e o morrer no hospital

Ler o texto completo →
Por séculos a morte sempre foi encarada como parte natural da vida, envolvida em rituais e sentido. No ambiente hospitalar de hoje, ela passou a ser tratada como algo a se evitar a qualquer custo, quase um erro do próprio sistema de saúde. Entender essa mudança histórica ajuda a situar o trabalho do psicólogo hospitalar quando a cura deixa de ser possível, no campo dos Cuidados Paliativos. Focar no paciente, nos cuidados e no bem-estar muitas vezes traz mais dignidade ao morrer.
Durante muito tempo a saúde esteve associada a explicações espirituais: a doença era lida como desequilíbrio cósmico ou castigo divino. Curandeiros, rezadeiras, benzedeiras e parteiras concentravam saberes orais, observação e conhecimento de ervas, num cuidado voltado à pessoa e à sua comunidade, não a uma enfermidade isolada.
Com a expansão do cristianismo, a Igreja Católica passou a controlar aos poucos a assistência oferecida nos mosteiros, aproximando medicina e teologia. O hospital nessa época funcionava como abrigo (hospitium, de onde vem o próprio nome) para pobres, peregrinos e desamparados: a doença era vista como penitência, e cuidar dela, um gesto de caridade voltado à salvação da alma.
A partir do Renascimento, e com mais força no século XIX, o saber médico se reorganizou em torno do funcionamento do corpo e da microbiologia. O hospital deixou de ser refúgio para se tornar espaço de controle social e, depois, o centro técnico da medicina, voltado a diagnóstico e investigação clínica. Essa virada aprofundou uma desigualdade: as elites acessavam uma medicina científica mais eficaz, enquanto as classes baixas seguiam restritas a cuidados empíricos e místicos.
A medicalização, que ganhou força nas últimas décadas do século XX, é a expansão da lógica médica para áreas cada vez mais amplas do cotidiano. As vivências de cada pessoa passaram a ser constantemente classificadas e alvo de intervenção, e a pessoa concreta, com sua história, foi reduzida a protocolos e categorias estatísticas.
Nesse processo, o ensino médico passou a tratar a morte como fracasso profissional, priorizando manter a vida a qualquer custo, mesmo quando isso significa prolongar artificialmente o morrer à custa do bem-estar do paciente.
A Tanatologia se dedica ao estudo da morte, das perdas, do morrer e do luto, com o objetivo de aliviar o sofrimento psíquico de quem vive ou trabalha com esses momentos. É nesse ponto, o mais difícil da prática clínica, que o cuidado hospitalar chega ao seu limite.
No passado, a morte era encarada com mais naturalidade: a falta de recursos tecnológicos e as grandes epidemias a tornavam mais frequente, e ela carregava sentidos construídos por gerações: a lembrança e os feitos dos antepassados dignificavam a própria família. Era comum morrer no ambiente doméstico, cercado por seus parentes e amigos da comunidade, com chance de reorganizar os laços e ter os últimos desejos respeitados. Hoje a morte virou tabu, tratada com o mesmo desconforto que antes cercava o sexo, e mesmo os profissionais de saúde, que lidam com ela todos os dias, tendem a senti-la como um resultado indesejado, o que gera impotência e culpa diante da perda.
Os Cuidados Paliativos surgiram como resposta ao excesso de tratamento, a chamada obstinação terapêutica, e propõem uma abordagem humanizada para pessoas com doenças graves, crônicas ou que ameaçam a continuidade da vida. O foco não é curar, mas cuidar da qualidade de vida do paciente e da família, aliviando o sofrimento físico, emocional, social, espiritual e existencial, entendendo a morte como parte da vida, sem antecipá-la nem adiá-la artificialmente.
O psicólogo tem papel central no suporte ao paciente, à família e à equipe, num modelo centrado na pessoa, que defende início precoce do cuidado, junto ao tratamento da doença, e respeito às Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV) do paciente, com seus valores, crenças, cultura e autonomia como eixo. Sua função não se resume a mediar ou convencer uma das partes a mudar de ideia: dentro da equipe multiprofissional, ele participa da comunicação de notícias difíceis, de decisões clínicas complexas, pode acionar o Comitê de Bioética, e no plano institucional contribui para a capacitação de outros profissionais e o desenvolvimento de protocolos.
Existe um espaço, entre o hospital que cura e o hospital que acompanha até o fim, que a medicina sozinha não alcança. Ali, o psicólogo ajuda o paciente e sua rede familiar e social a entender diagnóstico e prognóstico, apoia o enfrentamento das perdas trazidas pelo adoecimento, e auxilia na construção de sentido diante da finitude, com suporte também ao luto, antes e depois da morte, atento aos sinais de risco de um luto mais difícil.

Tem uma pergunta?

Se você estiver agora em uma crise ou com pensamentos de tirar a própria vida, não espere minha resposta. Sua vida importa muito! Ligue 188 (CVV, 24h, gratuito) ou procure a emergência mais próxima, lá sempre haverá profissionais capacitados para te ajudar agora.

Manda sua pergunta sem se identificar, sobre o que você quiser. Não precisa ser sobre os textos desta página: pode ser qualquer dúvida de psicologia, ou algo que você esteja atravessando. Leio pessoalmente, e quando fizer sentido ela vira uma pergunta nova aqui na página, sempre reescrita de forma que ninguém consiga te identificar. Nem toda pergunta enviada vira resposta publicada, e não há prazo garantido — isto não é um canal de plantão, é um espaço de conteúdo.

Não pedimos nome nem e-mail. Se quiser uma resposta pessoal e não pública, prefira o WhatsApp.

Alguma coisa aqui falou com você?
Dá para conversar sobre isso.

Atendo online, para todo o Brasil e para brasileiros em qualquer parte do mundo. A primeira conversa serve para a gente se conhecer, sem compromisso de continuar.