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Clínica Hospitalar:
Itinerário Terapêutico

o corpo e suas marcas

Dentro de um hospital, o corpo não é só um conjunto de sintomas para tratar. Ele também guarda marcas de uma história pessoal que a medicina sozinha não alcança. Este texto explica o que faz um psicólogo dentro de uma equipe hospitalar, o que é o itinerário terapêutico que cada paciente percorre antes de chegar ao consultório, e por que separar a doença da pessoa muda o cuidado.

Em sua perspectiva clássica, a biologia e a medicina partem do princípio de que, quando o corpo e o funcionamento de um indivíduo constituem as melhores respostas que a vida encontrou para as exigências de um meio ambiente, ele é adaptado e considerado "normal", estabelecendo assim o conceito de normalidade com base numa variação quantitativa entre o normal e o patológico, ou seja, "normal" como apenas uma grandeza matemática ou estatística referente à norma, ao que "normalmente ocorre", ao que é comum. Essa variação, porém, se estabelece também numa ordem qualitativa: o normal só pode ser entendido no plano individual da normatividade biológica, relacionado com o meio.

Essa visão deu prestígio à ideia do corpo como uma máquina, que pode ser medida, corrigida e ajustada. Sem negar o corpo físico, a psicologia amplia esse olhar ao mostrar que o corpo humano também é moldado pelas regras que aprende a seguir sobre si mesmo, pelas relações que cultiva a partir do que valoriza no outro e pela interpretação particular que cada um dá ao que vive. Esse tanto a mais, que vai além do organismo, é o que se torna decisivo quando se pensa a clínica dentro do hospital.

No hospital, várias profissões trabalham juntas para cuidar do paciente de forma completa, mas isso costuma ser confundido com um trabalho realmente integrado entre elas. A multiprofissionalidade junta disciplinas lado a lado, com risco de o cuidado ficar fragmentado; a interdisciplinaridade exige troca real entre os profissionais. Essas equipes costumam reunir médicos, profissionais de enfermagem, psicólogos, nutricionistas, dentistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e assistentes sociais.

A presença de psicólogos nessas equipes cresceu, mas nem sempre vem acompanhada de clareza sobre o que esse profissional realmente faz, e seu papel acaba reduzido a suavizar a relação entre médico e paciente ou oferecer apoio emocional. Uma contribuição importante da psicologia é não confundir aquilo que a instituição ou o médico pedem com aquilo que de fato mobiliza a pessoa. Escutar a diferença entre a queixa que é formulada, a ansiedade e desconforto emocional e o valor que orienta a pessoa por trás disso abre espaço para que o sujeito apareça na cena hospitalar para além do corpo biológico que sofre.

Em muitos contextos, as equipes acabam reduzindo o paciente aos critérios do diagnóstico e adaptando a pessoa ao saber já estabelecido, em vez do contrário. Por isso a integração da equipe, feita por meio do diálogo, é necessária. Neste aspecto o psicólogo atua como mediador do vínculo entre o paciente e os profissionais de saúde responsáveis pelos procedimentos técnicos voltados ao bem-estar biopsicossocial. Sua atuação exige explicitar a dimensão psicológica do paciente e da família, com avaliações, devolutivas e registros em prontuário. Mas uma atitude humanizada não se reduz ao acolhimento.

O itinerário terapêutico é o caminho que uma pessoa percorre para lidar com uma doença ou um sofrimento. Raramente é um plano definido desde o começo: ele vai se formando aos poucos, misturando soluções diferentes. Esse trajeto não é planejado e se divide em três etapas: o cuidado informal, com automedicação e conselhos de família, amigos, benzedeiras ou práticas religiosas; o popular, com terapias alternativas, chás, remédios naturais, medicinas tradicionais e rezas; e o formal, quando chega ao sistema oficial de saúde, pública ou privada, com postos de saúde, UPAs, prontos-socorros, CAPS, hospitais e médicos especialistas. Entender esse percurso importa porque mostra os obstáculos reais que a pessoa enfrentou antes de chegar ao profissional, como falta de informação ou fila de espera, e ajuda a explicar por que a cultura e o contexto social de cada um pesam tanto na decisão de seguir ou abandonar um tratamento.

Esse itinerário também envolve crenças, valores e costumes que orientam as decisões sobre tratamento e cuidado: um conjunto de escolhas e caminhos que as pessoas constroem para lidar com a aflição. Essas escolhas não são só técnicas: elas carregam experiências, vínculos e formas próprias de cada um dar sentido ao adoecer. Será que o ato do psicólogo é possível dentro de um hospital? Essa é uma das perguntas centrais da clínica em instituições de saúde, justamente quando a sensação de controle, superioridade ou autossuficiência do paciente e sua família é quebrada de forma brusca diante da ameaça da morte.

O percurso clínico não faz desaparecer aquilo que está de fato acontecendo na experiência da pessoa, mas atua sobre a forma como isso é vivido e pode ser elaborado, colocado em palavras. A internação e o processo de adoecer carregam questões subjetivas que, quando são ignoradas no tratamento, voltam na forma de impasses, recusas, angústia, dificuldade de seguir o tratamento ou até sintomas.

Quando o nome da doença passa a definir quem a pessoa é, corre-se o risco de empobrecer o olhar clínico e reforçar a sensação de perda de identidade. Preservar a diferença entre a doença e quem sofre com ela favorece mais autonomia psíquica e ajuda o paciente a perceber que o sofrimento vivido não resume tudo o que ele é. O profissional precisa evitar se guiar só pelo diagnóstico, porque o cuidado é voltado a pessoas impactadas pelo adoecimento, não a doenças isoladas. Nenhuma doença existe fora do corpo, da história e da experiência de quem a vive.

Em geral a hospitalização, os tratamentos prolongados e a forma de cuidado com a saúde mobilizam o modo como uma pessoa distribui, investe e equilibra a sua energia mental entre o amor pelos outros e por si mesma, já que esta energia existe em uma quantidade limitada que precisa ser administrada para manter a saúde mental e a autoestima em equilíbrio, fazendo com que sintomas, inibições e angústias gerem, algumas vezes, graus de sofrimento maiores do que aqueles produzidos pela própria doença.

Humanizar a assistência em saúde é, nesse sentido, devolver ao indivíduo aquilo que lhe foi tirado pelo processo de coisificação cada vez mais intensa, contribuindo para a qualidade de vida nos hospitais, sem negar o mal-estar do existir. No ambiente hospitalar, a pessoa enfrenta não só os sintomas do próprio adoecimento, mas todo um contexto institucional marcado por incerteza sobre os tratamentos, possíveis sequelas, efeitos indesejados de medicamentos, dores e incômodos de procedimentos, tratamentos às vezes impostos, e até descaso, quando alguém passa a ser chamado pelo nome da doença que tem.

A avaliação psicológica é importante para entender como o paciente e a família estão lidando com o adoecer e a internação. O instrumento de avaliação deve ser um auxílio de verdade, não um dispositivo que exclui. Isso importa ainda mais em decisões de grande peso e efeito irreversível, como cirurgias de afirmação de gênero, bariátricas ou transplantes, em que pressões institucionais e de mercado não podem reduzir esse trabalho a um mero procedimento burocrático.

O ato do médico e o ato do psicólogo são intervenções diferentes: o médico se apoia na promessa de cura e no domínio técnico; o psicólogo parte da abertura ao psicológico, tendo a palavra como sua principal ferramenta. Falar a partir de uma postura do psicólogo permite que parte da experiência do paciente seja colocada em palavras, especialmente em situações de urgência. Mesmo sem tempo para uma escuta mais longa, podem surgir insights pontuais e maior flexibilidade psicológica, decisivos para o enfrentamento do tratamento ou para a posição da família diante da crise.

Com o aumento de quadros como depressão, dependência química e distúrbios da imagem corporal, o corpo ocupa um lugar cada vez mais central no sofrimento hoje: deixa de ser só meio de satisfação e passa a ser, em muitos casos, o próprio palco da dor, da frustração e da sensação de não dar conta. Isso ajuda a entender que o sofrimento que aparece no corpo pode ser mais do que uma alteração de função: ele também pode carregar marcas da história psíquica, como as marcas do desamparo aprendido em alguns pacientes, ou as tentativas de silenciamento definitivo da dor.

A modernidade reforçou uma visão mecânica do corpo, ligada ao individualismo e ao avanço de formas racionais de conhecimento. Na tradição da psicologia, o corpo não se confunde com o organismo descrito pela medicina. O corpo é o lugar onde aparecem padrões de comportamento que se repetem, compulsões, agressividade, conflito e sintomas. Por isso o corpo se manifesta na clínica de formas variadas, sem nunca se reduzir a um suporte apenas biológico.

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